Em entrevista com José Fanha

09Dez2009

“O José Fanha (289/1961) é um notável poeta, notório também porque dá voz à poesia, à sua e à de outros poetas. Ele próprio se declarou radicalmente Português, mesmo quando Portugal não correspondia aos seus ideais de liberdade, justiça e solidariedade.

Poeta, radicalmente Português, Antigo Aluno do Colégio Militar, são três atributos que o Zé Fanha assume e, notoriamente dá a conhecer sobre si, nunca faltando a nenhum dos três.

O Colégio cultiva ideais e todos nós sabemos que lá se ouve a voz dos poetas. Este não é excepção.”

Foi esta a justificação da atribuição do “Prémio Barretina 2009 – Notoriedade” ao 289/61.

Em entrevista com Carlos Rio Carvalho, transparece uma personalidade que é um exemplo notável da enorme riqueza do universo dos Antigos Alunos do Colégio.

Recorda a intervenção do Fanha após ter recebido o Prémio Barretina, no vídeo que está em baixo, no final do texto da entrevista.

José Fanha - O homem que foi a uma biblioteca para saber quem era

CRC - Tu tens actualmente uma actividade de promoção do gosto da leitura junto dos jovens. Porque fazes isso, e que dimensão tem essa actividade na tua vida?

JF - Tem uma dimensão muito grande, quase total.

Eu sou de uma família de militares até à quarta geração. Vivi a minha infância com a minha avó que era filha, neta e bisneta de militares. Os militares na segunda metade do Século XIX estavam ligados a sectores de ponta da sociedade Portuguesa. O avô da minha avó era general de Engenharia, e a minha avó contava-me que esse meu trisavô tinha conhecido o Eiffel. O meu avô, que não conheci, era capitão de engenharia, poeta, fazia teatro e cantava canto lírico, e a minha avó transmitiu-me a memória maravilhosa dessa gente. Além disso, a minha avó, lia em várias línguas e tinha a casa cheia de livros. Desde pequeno, ler e escrever era tudo, preferia que me dessem livros a carrinhos ou pistolas e isso continuou sempre, no Colégio Militar e por aí fora. Ler foi um vício de pequeno. Ficava admirado quando via pessoas que não tinham o hábito de ler.

Acontece que no Colégio eu escrevia um caderninho de versos e no sexto ano tive um professor de filosofia a quem mostrei o caderno, que olhou para aquilo e disse: - Ah…Você é um surrealista!

Eu não fazia a mínima ideia do que era tal coisa… Mas um gajo naquela idade quer ser alguma coisa, seja marcar cantos, ser um bom guarda redes, ser alguma coisa… Então fui para a biblioteca para saber o que é que era. Isso foi o meu mergulho numa leitura mais preocupada. Depois houve um homem muito importante, o Júlio Martins, o Ju-Ju, meu Professor de Língua e Cultura Portuguesa. No meu tempo a nossa história literária acabava no Século XIX, mas o Júlio Martins abria outras pistas para uma cultura mais moderna e abriu-me os olhos para o Fernando Pessoa e para o neo – realismo, por exemplo.

Entretanto o meu pai foi para Professor do Colégio e queria que eu fosse para a Academia. Em 66/67 eu já estava politizado, de uma forma simplista mas já contra o regime. Aliás, havia muita gente no Colégio que era conscientemente anti-salazarista, contra o regime e que saiu depois para a militância política de esquerda. Em 66/67 sabíamos muito bem o que era a guerra. Havia pais, irmãos mais velhos… oficiais que chegavam ao Colégio e que contavam o que se estava a passar. Ainda não havia uma ideia de revolução, mas sim a ideia de uma guerra sem futuro. Lá fora havia o movimento hippie, depois o Maio de 68. O mundo estava a ferver e isto aqui era uma pasmaceira do caraças! E fui para arquitectura. Aliás do meu curso em quarenta e tal só um foi para a Academia.

Eu só sou arquitecto por causa da guerra colonial, tirei o curso para ir conseguindo adiamentos.

Depois, logo aos 19 anos atiraram-me, quase, para dentro de um palco e comecei a declamar poesia, e logo ao lado do Zeca Afonso. Comecei também a andar com essa malta, os chamados “Baladeiros”, o Zeca, o Adriano, o José Jorge Letria, o Chico Fanhais… Comecei a fazer teatro nas Associações de Estudantes, a ter uma actividade estudantil intensa.

A seguir ao 25 de Abril ainda fui arquitecto dois anos, trabalhei em jornais e escrevia poesia, até que aparece um concurso na televisão “ A Visita da Cornélia”. E saio da Cornélia com fama de poeta.

CRC - Mas tu és um poeta…!

JF - Eu sou um poeta. Mas uma coisa é sê-lo, outra é ser reconhecido. A seguir tive a sorte de me convidarem para algumas coisas “O Pão com Manteiga” não sei se te lembras…?

Trabalhei também com o João Lourenço no Teatro Aberto durante cerca de dez anos na adaptação de uma série de peças de teatro. Depois na televisão. Sempre a ler, sempre a escrever.

Entretanto era Professor de Educação Visual e História de Arte no Ensino Secundário. Nos anos noventa trabalhei muito para televisão, na altura dos novos canais, fiz a Rua Sésamo, fiz telenovelas... No final dos anos noventa as coisas começaram a tornar-se desagradáveis. Era quase tudo “Morangos com Açúcar”, e resolvi voltar ao ensino.

Como estava muito preocupado com a questão da leitura… É bom que se saiba uma coisa: Portugal é dos Países onde menos se lê na Europa e isso tem consequências. Aliás, ainda há dias saiu um relatório onde se avaliam as consequências económicas da iliteracia.

CRC - Mas não é por aí que tu estás a agarrar o tema da literacia. Tu estás a agarrá-lo pela emoção…

JF - Eu estou a explicar-te tudo em conjunto… No fim dos anos 90 começou-se a perceber que era importante investir na leitura e construíram-se cerca de 170 bibliotecas municipais. Foi uma grande aventura, em muitos concelhos do interior a biblioteca passou a ser o grande equipamento cultural. Entretanto surge o Plano Nacional de Leitura e crescem as bibliotecas escolares. Eu fiquei muito entusiasmado com isto e fiz um mestrado sobre comunidades de leitores e leitura partilhada e estou agora a fazer um doutoramento na área da História da Cultura escrita. Outra vez os livros…

Eu já ia muito de vez em quando a escolas contar história e ler poemas. A pouco e pouco fui entrando nisso e, neste momento, faço-o praticamente a tempo inteiro, o que me dá um imenso prazer. Por exemplo, esta semana estive em Pevidém – Guimarães, em Bustos - Cantanhede, em Montemor-o-Velho e em Pombal. Não só trabalho com os miúdos mas também com os professores e os pais. Ler não é uma questão escolar, é uma questão de toda a sociedade e a promoção da leitura passa por transformar os pais e os professores em leitores. Um miúdo torna-se leitor se os pais forem leitores…

CRC - Achas que a iliteracia de que falas está relacionada com a predisposição para aceitar perdas na liberdade individual? Em que medida é que a liberdade está relacionada com a literacia?

JF - Tem uma relação muito óbvia. O livro é a primeira coisa a ser atacada quando falta a liberdade. Há uma longa história de destruição de livros pelas ditaduras todas.

O problema da leitura em Portugal começa com a Contra – Reforma e com a expulsão dos judeus. São expulsos os homens dos livros. A igreja católica não exige a leitura da Bíblia a reforma exige-a. Por isso toda a Europa da Reforma venceu o analfabetismo com maior facilidade. Tivemos depois muitos períodos de ditadura e nenhuma delas gostou dos livros.

CRC - Dá a ideia que tu prolongas a tua militância pela liberdade através da promoção da literacia.

JF - É verdade, é mesmo verdade. Eu acho que quem lê tem capacidade de ter uma atitude crítica perante a vida. Se eu lhe der os instrumentos, ele depois que resolva para onde quer ir. Mas é preciso que tenha esse instrumento.

CRC - Tu no Colégio já eras assim, divertias a malta?

JF - Era um bocado chato. Tentava impingir poesia a toda a gente.

CRC - Como é que foi a tua Récita?

JF - Foi proibida…

CRC - A sério…?

JF - A primeira e creio que única vez em que a Récita foi proibida, fui eu que a escrevi com mais um ou dois.

CRC - No jantar de 19 de Novembro de 2009, depois de receberes o Prémio Barretina, tu disseste, e nós ouvimos com atenção, que tinhas aprendido a liberdade, a igualdade e a solidariedade no Colégio. Então explica lá como é que…

JF - Isso é muito engraçado…

CRC - Explica lá como é que liberdade, a igualdade e a solidariedade se acolhem numa instituição tantas vezes acusada de ser fechada.

JF - Eu vou-te contar uma história. Um gajo tem que ter a liberdade de fazer um disparate! Será castigado por isso, mas tem que ter a liberdade de o fazer. O politicamente correcto é claustrofóbico, porque não dá margem para ser marginal.

Lembro-me que um dia “cavei”, no 5º ano, para ir jantar a Carnide. O Vasconcelos, um tenente dos cavalos, estava de oficial de dia e caçou-nos quando estávamos calmamente a jantar. A primeira coisa que eu pensei foi: - Lá se me vai o bifezinho…!

Acontece que o que ele disse foi: - Meus Senhores, acabem de jantar e a seguir apresentem-se no meu gabinete.

Isto é liberdade. Nós fomos respeitados, apesar de estarmos numa situação proibida pelo sistema, isto é um sentido profundo de liberdade.

Outro lado fundamental na construção da dignidade individual está no respeito como éramos tratados, por Senhor Aluno. O Senhor Aluno é um ser humano respeitável com uma carga de dignidade, responsabilidade e liberdade. Porque a liberdade é quando se é alguém. Não é quando se é ninguém. Quando se é ninguém não se têm liberdade.

CRC - A solidariedade no Colégio é mais fácil de explicar?

JF - É. Claro. É uma coisa que no Colégio se constrói por vezes de forma dura, não podemos omitir isso.

CRC - De dificuldades superadas em conjunto…

JF - É. Mas eu ainda hoje eu vejo a malta do Colégio a dar a cara. Essa superação das situações difíceis em conjunto leva também à capacidade para assumir, perante o colectivo, as situações menos agradáveis com confiança.

Para mim é normal dar um passo em frente.

CRC - Que achas do patriotismo como forma de solidariedade, tu que escreveste dos poemas mais patrióticos que conheço?

JF - Sim, acho que é. E acho também que temos que voltar a falar de Pátria.

CRC - Tu ficaste irremediavelmente ligado ao ambiente do PREC e do pós 25 de Abril. Não te irritas um bocado com isso? Tu andas aí a ensinar os jovens a saber ler, tu és um poeta de tudo, não és só um poeta desse período revolucionário.

JF - Neste momento… isso incomoda-me um bocadinho.

CRC - Calculei...

JF - Porque é um bocado redutor. Eu sou muito mais coisas do que isso…e já nem sequer estou aí. Até porque o PREC visto à distância…

É engraçado, agora estou a escrever um livro para crianças sobre a República e tive que estudar essa revolução a fundo. É engraçado: aqueles dias de revolução são iguaizinhos ao 25 de Abril. Com confusões muito parecidas, ninguém faz nada do que está combinado. Por exemplo, o Machado dos Santos é uma figura fantástica: não ia às reuniões para não lhe dizerem que a revolução tinha de ser adiada e sai sozinho para a revolução.

Mas, mais importante que isso: nós temos vivido as últimas décadas numa total perda de sentidos, de perda de valores de exterior sem interior, de “hambúrguer” e, sobretudo, de falta de memória. Vivemos numa sociedade que já não tem ontem, só tem hoje, e como não tem ontem também não tem amanhã.

Na leitura e na palavra nós estamos a ter um tempo dramático que é o da redução, da compactação, da “hamburguerização” da linguagem. Eu acho que, cada vez mais, é a forma como falamos que representa a forma como pensamos, se falamos mal pensamos mal.

Por isso, e porque essas são preocupações actuais, essa colagem redutora me incomoda um bocadinho.

CRC - Dificilmente te livrarás dela.

JF - Não me livrarei. Ainda por cima é muito engraçado, há muitas pessoas que me identificam como comunista. Ora, eu nunca pertenci ao PC na vida, sempre fui um gajo livre.

CRC - Eu, se me perguntassem se eras comunista, diria que sim…

JF - Andei de facto pelos maoístas antes do 25 de Abril, mas o que sou é uma pessoa livre e isso é que para mim é importante. Posso estar ao lado de quem me apetecer. Por exemplo nestas eleições apoiei o Fernando Seara, a Susana Amador que é do PS e apoiei um, também camarada nosso, muito Colégio, o Pedro Lopes de Mendonça, candidato pelo PC à Câmara de Cascais.

CRC - Imagina que sabendo o que sabes hoje, por magia, eras de novo jovem e entravas entrar numa camarata da 3ª. Nessa camarata estavam uma dúzia de miúdos com 14 anos e tu podias dizer-lhes algo de que eles nunca mais se esqueceriam. Que dirias tu?

JF- Olha. Há um poema do José Luis Peixoto de que eu gosto muito:

na hora de pôr a mesa, éramos cinco

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Diria isto.

CRC - Há mais alguma coisa que gostarias de dizer?

JF - Oh pá, havia tanto…!

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