Mágica Noite Colegial

24Fev

Artigo mágico para qualquer Antigo Aluno, na Revista "O Colégio Militar" de Setembro/Dezembro 2009, da autoria da Professora de Matemática, Maria Isabel Oliveira.

"(...) ajudavam mesmo e gritavam o "Zacatraz", e pela 1.ª Companhia "Traz, traz", e pela 2.ª Companhia "Traz, traz", e pela 3ª Companhia "Arriba, arriba" e pela 4.ª Companhia "Allez, allez à votre santé" e quando dei por mim, ofegante, já estava nos Restauradores, esperando a descida da Escolta a Cavalo."

"Voltei-me de lado e adormeci, sonhando que era o Marechal Teixeira Rebelo."

"Logo que os graduados olharam para o meu nariz pequeno e redondo, não vacilaram e disseram: tu vais ser o "Batata"! (...) Sou o "Batata" e assim serei tratado pelos meus camaradas até à morte."

"Ela, a cúpula, estará sempre vigilante, aguardando o vosso sincero abraço."

Se pretendes receber a revista em casa, preenche e envia o cupão em anexo.

Mágica Noite Colegial

Era domingo. O primeiro domingo do mês de Março. Uns tímidos raios de sol teimavam em espreitar por entre as frestas das persianas, avisando-me:
- Rapaz, acorda! Está na hora da passeata dominical com o teu pai.
De um pulo, levanto-me e arranjo-me. Na minha cabeça ainda martelavam as palavras de desafio proferidas na véspera, por ele:
- Amanhã, vais comigo à Avenida, ver o desfile, mas já não vais às cavalitas. Sempre quero ver se tens pernas para aguentar a descida. Afinal estás um homenzinho, estás a acabar o 1.º Ciclo!
Na sala, sorridente, lá estava ele. Trajava, informal, umas calças de ganga e blazer de bombazina azul que na lapela ostentava o seu orgulho, a Barretina. Olhando-me nos olhos, disse-me marotamente:
- Estava a ver que não vinhas... temos, ou não temos homem?
Durante toda a viagem, falou da rapaziada do seu curso. Fala deles sempre por alcunhas ou por números, que eu, de tanto os ouvir, já sei de cor e salteado.
Como sempre, o carro ficou estacionado no Parque Eduardo VII. E lá fomos descendo, cúmplices, até ao Marquês de Pombal, onde estava a sua "rapaziada". E o mais estranho é que pareciam e se comportavam mesmo como rapazolas... riam-se, abraçavam-se uns aos outros e davam "caldinhos" amigáveis entre eles.
- Então, "Cenoura", o teu rapaz está crescido. Quem me dera o meu assim com essa idade. Olha! Certamente ainda vai ser graduado do meu - disse o "Regabofe", enquanto me passava a mão pela cabeça.
- Quem sabe? Uma coisa será certa: "Cenoura" não vai ser, pois o miúdo tem o cabelo escuro da mãe - respondeu o meu pai.
- Mas vão arranjar-lhe uma alcunha à altura, não perde pela demora - disse o "Fuinha", rindo à gargalhada.
"rapazes perfilados e orgulhosos na sua farda, a farda Cor de Pinhão."Eu, nem sei porquê, também ri. As pernas tremiam-me que nem varas verdes. Será que vou aguentar? Não posso fazer má figura, pensava, enquanto observava os rapazes perfilados e orgulhosos na sua farda, a farda Cor de Pinhão. Foi então que o meu olhar parou sobre um rapazote, que não parava de repetir:
- Oh meu Capitão! Oh meu Capitão! E se eu não aguentar? A arma pesa muito! Vou passar uma vergonha! - disse o miúdo, com ar aflito.
- Claro que aguentas. Nunca ouviste dizer que para baixo todos os Santos ajudam? Alguém te dará uma mãozinha - respondeu o Capitão, enquanto lhe ajeitava a Barretina.
Começa o desfile. De mão dada ao meu pai, dando passos maiores de que as minhas pequenas pernas podiam alcançar, ia repetindo "para baixo todos os Santos ajudam, para baixo todos os Santos ajudam" e afinal ajudavam mesmo e gritavam o "Zacatraz", e pela 1.ª Companhia "Traz, traz", e pela 2.ª Companhia "Traz, traz", e pela 3ª Companhia "Arriba, arriba" e pela 4.ª Companhia "Allez, allez à votre santé" e quando dei por mim, ofegante, já estava nos Restauradores, esperando a descida da Escolta a Cavalo. Foi então que o meu pai me agarrou por um braço e me colocou às cavalitas. Orgulhoso, disse-me ao ouvido:
- Temos homem!
- Obrigado, paizinho - agradeço, cheio de vaidade, pela missão cumprida.
- Para o ano é o teu irmão. Vamos ver se tem a tua fibra.
- Está bem paizinho - respondi, sem compreender o que era aquilo da "fibra".

"Carregado de sacos, repletos de uma catrefada de material escolar..."Nunca o Colégio me pareceu tão grande como naquele dia. Carregado de sacos, repletos de uma catrefada de material escolar e com a caixinha do material de EVT que, teimosamente, me escorregava debaixo do braço, lá ia eu, "Turista", com os meus camaradas de turma atrás do nosso graduado. Íamos para o pavilhão "Novo", para conhecermos a nossa sala de aula e termos o primeiro contacto com a Directora de Turma. À porta da sala lá estava ela. De lista na mão, ia chamando cada um de nós e apontava-nos uma carteira.
- 235, Silva. Sentas-te naquela carteira.
- Sim, senhora professora - respondi.
Entrei. A minha morada era a "segunda carteira da segunda fila". Do meu lado esquerdo, estava um rapaz, muito loiro, tinha chorado que nem uma "Madalena arrependida" quando os pais se tinham ido embora, mas agora estava todo entretido a tirar livros e mais livros, cadernos e mais cadernos de um dos sacos. À minha frente ficou, graças a Deus ou à sorte da tal lista da Directora de Turma, um rapaz gorducho e baixote, que os graduados já disseram ser o "batalhãozinho" que, tal como eu, ia assistindo à arrumação dos restantes camaradas pela sala que cada vez mais parecia desarrumada pelo material que cada um de nós arrastava a custo até ao seu lugar.
- Boa tarde, Srs. alunos, sejam bem-vindos. Eu sou a vossa Directora de Turma - disse, num cumprimento rasgado por um lindo sorriso.
- Boa tarde, senhora professora - respondemos em coro como que ensaiados.
Deu-nos a conhecer o nosso horário, deu-nos normas e regras a cumprir, indicou o material que ficava na sala, o que ia para o pavilhão das Ciências e o que ia para a sala de EVT; desse não havia dúvidas, estava na tal caixa. A Directora de Turma rodopiava entre as carteiras, sempre de sorriso aberto, afagando aqui e ali os mais tristes ou ajudando os mais baralhados com a separação do material.
- Não se preocupem, hoje parece tudo muito complicado, mas amanhã cada professor vai ajudar-vos na organização do material de cada disciplina. Há dúvidas? Não? Sr. Graduado pode levar os seus camaradas mais novos. Obrigada. Até amanhã, rapazes. Um resto de dia feliz para todos!
- Obrigado, senhora professora, até amanhã - voltámos a responder em coro.
No estrado, o graduado gritou:
- Sentido!
E nós, num impulso, pusemo-nos de pé e saímos por filas da sala de aula.

Apesar do cansaço, o sono teimava em chegar. Tinha sido um dia preenchido por emoções muito fortes: a chegada ao Colégio; o fardar; o aprender a fazer a cama; a visita ao Colégio; a primeira formatura; as refeições, comidas à pressa, no refeitório. Mas na minha cabeça persistiam o olhar molhado de minha mãe quando se despediu de mim, a palmada, de alento, dada nas costas por meu pai e os risinhos nervosos do meu irmão ao ver-me fardado. Por voltas e mais voltas que desse na cama, o sono não vinha. Tapei a cabeça com o lençol e chorei baixinho; já estou cheio de saudades. Não vou aguentar esta vida, pensei. "(...) tinha junto a mim uma alma fantasmagórica..."Eis que então, arma-se uma enorme algazarra na camarata. Mal tinha destapado a cabeça, já tinha junto a mim uma alma fantasmagórica, dizendo ser o Espírito do Marechal Teixeira Rebelo que vinha falar do Colégio Militar. De olhos muito abertos, dentes cerrados e com o coração quase a sair do peito, lá aprendi o que era o Espírito Colegial e compreendi que os graduados tudo iriam fazer para nos ajudar a encontrar o tal Espírito. A camarata acalmou. De olhos postos no tecto, enviei um beijo à minha família e disse baixinho: vais aguentar! Voltei-me de lado e adormeci, sonhando que era o Marechal Teixeira Rebelo.

"Aqui vou eu, de arma ao ombro, botões reluzentes ao Sol e concentração..."O tempo voa. Aqui vou eu, de arma ao ombro, botões reluzentes ao Sol e concentração nos meus camaradas de pelotão, a descer pela primeira vez, no asfalto, a Avenida.
Apesar do brio e atenção, pelo canto do olho consegui avistar o meu irmão a prestar a sua prova de fogo. Também ele orgulhoso, nos Restauradores, vai ouvir meu pai segredar-lhe ao ouvido "Temos homem!". Estão lá todos, o "Fuinha", o "Regabofe", todos. Hoje gritam mais alto pela 1.ª Companhia "Traz... traz", pois vai o filho de um deles a marchar e a seguir a tradição.
- Força aí, "Batata", alinha! Vais todo torto - grita o "Fuinha" quando me vê passar.
É verdade o "Batata". Agora sou o 235, Silva, mais conhecido por "Batata". Logo que os graduados olharam para o meu nariz pequeno e redondo, não vacilaram e disseram: tu vais ser o "Batata"!
De início não achei graça nenhuma. Mas à medida que ia ouvindo as alcunhas dos meus camaradas: "Tira olhos", um aluno da Turma B dado à zaragata; "Azedo", o meu vizinho de camarata que foge da água como o Diabo foge da cruz; "Caliça", o tal rapaz muito loiro da minha turma... qual delas a melhor. Assim, até da minha gostei. Sou o "Batata" e assim serei tratado pelos meus camaradas até à morte.

Anos passaram sempre a olhar para a cúpula e a dizer-lhe: espera por mim. Também te vou abraçar, ai se vou!

"Hoje sou um jovem homem e estou pela última vez a comandar a 1.ª Companhia."Estes oito anos passaram a correr. Hoje sou um jovem homem e estou pela última vez a comandar a 1.ª Companhia. Estou com um nó no estômago. Toda a vivência colegial me vem à memória em pequenos slides desordenados: todos os meus professores, oficiais e graduados; o sorriso da minha primeira Directora de Turma e o modo maternal como nos tratava por "filhos" ou "meus rapazes", mas também os seus raspanetes e o modo como dizia: olhem a cúpula! Façam tudo para que o vosso objectivo seja subi-la e lá do alto gritar "Zacatraz"; o nariz colado às grades nas despedidas dos meus pais; as lágrimas vertidas; as risotas dadas; a "Bolama" comida às escondidas; o caminho até à camarata depois das aulas; os desfiles na Avenida; os jogos nos campos verdes; as "peladinhas" com os camaradas de curso; a aplicação e as horas dedicadas ao estudo; as medalhas merecidas; as "amarelas" apanhadas; os "saltos"; a "Mocada", onde o meu irmão era um mero Espanhol; a subida e o abraço dado à cúpula, agradecendo-lhe ter esperado por mim; a récita; a viagem de finalistas; a valsa dançada com minha mãe; as "Meninas" de Odivelas e as primeiras juras de amor... tanta, tanta coisa.

Hoje é o último dia de tantos que me esperam. A minha mãe não se cansa. De um lado para o outro lá vai tirando fotografias, ora a mim, que estou à frente da 1.ª Companhia, ora ao meu irmão que lá está para a 4.ª. Mesmo à minha frente está o "Regabofe", pois sempre fui graduado do seu rebento, o "Furão". Ao microfone, o Chefe de Protocolo anuncia: agora, o aluno mais novo dos futuros graduados vai receber o Guião do Colégio Militar.
Eu conseguia ouvir os passos certos de meu irmão e sentia-lhe o orgulho de tal feito. Como quem não quer a coisa, virei uma nesga o pescoço para o lado e observei-o. De braços muito esticados, recebeu o Guião e transportou-o como quem transporta uma Vida de mais de duzentos anos, uma Vida preenchida de Glórias.

"Quando estiquei o braço, apresentando a espada reluzente em continência ao nosso Director"Quando estiquei o braço, apresentando a espada reluzente em continência ao nosso Director, ...dei por mim sentado na cama de braço estendido e dedo a apontar o nada. O nada, Não! Apontava cada um e todos os que ensinei e com quem aprendi a ser menos "Eu" e mais "Nós"; apontava todos e cada um dos meus colegas com quem compartilhei saberes e dissabores; apontava cada uma e todas as alegrias, todas e cada uma das tristezas que vivi; apontava a Cúpula e o seu significado; apontava um percurso de todos os Grandes Feitos e cada um dos Novos Feitos para o nosso Colégio; apontada toda a Família Colegial e pensei que a noite Mágica foi esta que me fez percorrer numas breves horas de sono o percurso de uma Vida vivida por vós... e por nós partilhada.
Saibam que não é só para baixo que todos os Santos ajudam. Também existem os que vos ajudam a ir para cima, até à Cúpula. Assim, queiram vocês ouvir os conselhos dados, prestar o empenhamento pedido, cumprir os objectivos traçados... e lá do alto, gritanto o "Zacatraz", serão Homens completos de Valores e de Saberes.
Para cada um de vós grito baixinho "Allez, allez, à votre santé"...  e nunca esqueçam, "Menino da Luz" uma vez, "Menino da Luz" para toda a vida.
"Ela, a cúpula, estará sempre vigilante, aguardando o vosso sincero abraço".

Professora Maria Isabel Oliveira

"Ela, a cúpula, estará sempre vigilante, aguardando o vosso sincero abraço"

1 comentário

Obrigada à professora Isabel por nos fazer sorrir assim :)

Submeter um novo comentário

O conteúdo deste campo é privado e não irá ser exibido publicamente.
  • Endereços de páginas web e endereços de email são transformados automaticamente em ligações.
  • Tags HTML permitidas: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • You may quote other posts using [quote] tags.
  • As linhas e os parágrafos quebram automaticamente.

Mais informação sobre as opções de formatação

Mollom CAPTCHA (tocar som CAPTCHA)
Digite os caracteres que você vê na foto acima, se você não consegue ler-los, submete o formulário e uma nova imagem será gerada.