A revista “Única”, do “Expresso”, publicou os depoimentos de uma série de personalidades que vivem fora de Portugal, sob o título “Portugal visto de fora”.
Uma delas foi o filósofo Eduardo Lourenço (92/1934), que vive em França (Vence), desde 1965.
Sob o título “A minha relação com Portugal é uma espécie de luto diferido”, Eduardo Lourenço começa por escrever: «Olho para Portugal, desde há quase meio século como se olha para alguma coisa que se perdeu no sentido físico do termo, sem o poder perder simbolicamente. Essa perda traduziu-se num interesse mais profundo de outra ordem, como se o meu relacionamento com ele visto de longe fosse uma espécie de luto diferido à procura de cura. Como se a minha perda fosse um fantástico exorcismo. Uma espécie de mitologia».
Depois de falar dos portugueses dos séculos XV e XVI e de “Os Lusíadas”, lembra que «é este país que tem na mitologia, e mesmo como seu emblema nacional, a esfera armilar, a maior das pretensões».
A terminar diz: «Temos de nos adaptar à realidade que se impõe. Quando se envelhece temos mais tendência para considerar o que é positivo, Sinto-me hoje muito mais reconciliado com Portugal do que quando sai daqui. O país é uma coisa complexa. Aqueles 40 anos a que chamamos de salazarismo também são história de Portugal, e eu sou desse tempo. Calhou-me esse tempo. Não temos outra história a não ser aquela que nos faz».
Noutra edição, nas páginas de “Opinião”, António Brotas (30/1940), professor do Técnico, “defende que os docentes do secundário devem ter alguma capacidade de escolha sobre a matéria que vão ensinar”, num artigo intitulado “Três medidas para a educação”.
De acordo com a sua opinião, António Brotas considera que “é possível modificar, rapidamente, o nosso sistema educativo” e aponta três medidas: a primeira refere a recuperação do manual elaborado pelo professor Sebastião e Silva – “se o Ministério da Educação quiser melhorar o ensino da matemática no secundário, o que tem a fazer é reeditar este manual e enviá-lo, gratuitamente, a todos os professores de matemática do país”; a segunda – “as escolas superiores devem ser autorizadas a criar anos zeros equiparados ao 12.º ano para estudantes que tenham o 11.º ano. Aos estudantes do 11.º ano é, assim aberta a possibilidade de fazerem o 12.º ano numa escola superior em vez de continuarem numa escola secundária”; a terceira – “Os professores do ensino superior são responsáveis pelos programas das cadeiras que leccionam. Os do secundário têm de ensinar as matérias dos programas definidos pelo Ministério. Penso que convirá atenuar esta assimetria entre os professores dos dois graus de ensino”.
António Brotas defende que os professores do secundário devem ter a possibilidade de, para além de ensinarem aquilo que o Ministério exige, puderem ensinar aquilo que considerem importante nas respectivas cadeiras.
A terminar o seu artigo, António Brotas lembra que “em 1943, o Ministério da Educação negociou com o então Ministério da Guera, de que dependia o Colégio Militar, que nele fosse feita uma experiência pedagógica sobre a passagem do exame do 10.º ano do liceu para o 9.º. O Ministério da Guerra, que não tinha experiência na matéria, deu total liberdade para fazerem o que entendessem aos professores do CM, que prolongaram o português até ao 7.º ano, mudaram várias programas e suprimiram a disciplina de organização politica e administrativa da nação. O Ministério da Educação mão aceitou, depois, estas alterações. Passado 65 anos, considero que, do antigo ensino salazarista, o que de mais significativo ficou foi o espírito da antiga disciplina OPAN, que eu não tive”.
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