Garcia Leandro no "Sol"

19Jul2010

Nos “Ficheiros secretos”, que Luís Osório escreve na “Tabu”, a revista do “Sol”, a figura da semana é Garcia Leandro (94/1950), a quem Luís Osório chama “O homem dos sonhos a cores” e onde recorda a maneira como foi para a Governador de Macau.

«É seguramente um dos grandes militares da História portuguesa e tem uma particularidade que o distingue da maioria: sonha a cores e lembra-se todos os dias do vê». É assim que Luís Osório começa a falar de Garcia Leandro, antes de contar duas histórias passadas na Guiné, onde esteve como capitão.

Na primeira, imagine um grupo de combate português que entra num acampamento inimigo, passa busca ao local, até que, de repente, «o capitão dá de caras com a cartilha João de Deus, igualzinha às das nossas escolas primárias. Chega a comover-se quando nela pega – mas ao começar a folheá-la percebe que há algo que não bate certo. A cada uma das letras correspondia uma palavra que faria corar o poeta e pedagogo. A letra A era a primeira da palavra Arma; à R correspondia Revolução e à C, como calcula Camarada».

A segunda acontece quando um guineense, nativo do Norte do Cacine, pede ao capitão um pouco de arroz para cultivar ao lado da casa, que mais tarde o devolveria. Garcia Leandro cede-lhe o arroz, nunca mais pensa no caso, até ao dia em que aquele que lhe pedira o arroz emprestado aparece para o devolver. «Ele não sabe mas a partir desse instante passou a habitar na terra privada dos sonhos do militar português».

Mais tarde, após o 25 de Abril, os seus dotes diplomáticos foram reconhecidos e foi enviado, por Almeida Santos, à época Ministro das Colónias, a Macau para falar com os chineses. Após o encontro, «o chinês confessou-lhe que a China gostaria de ver como governador um homem paciente e ponderado. Se a premissa fosse cumprida certamente que não haveria problemas».

De regresso a Lisboa fez, como lhe fora pedido um relatório no qual «recomendava que o próximo governador fosse um diplomata ou um juiz experiente e ponderado.»
Mais tarde, um grupo de militares reúne com Almeida Santos, depois deste ter proferido declarações que apontavam para o impensável: «Almeida Santos endoidecera e ia reconduzir Nobre de Carvalho, homem que fora nomeado por Salazar».

Nessa altura, Almeida Santos diz-lhes que já escolheu o futuro Governador de Macau e que o homem indicado era Garcia Leandro que, aos 34 anos, foi o mais jovem Governador de sempre de Macau.

«Por lá ficou até 1979 e, ao contrário da opinião de tantos, os chineses não entraram por ali adentro como os indonésios em Timor. O General Garcia Leandro aprendeu aí que a paciência é a virtude mais difícil e também a mais recompensadora. Uma paciência de chinês que continua a usar. Todos os dias.»

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